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Sombra do Islã radical divide opositores / Entrevista / Haytham
Manna, líder da Coordenação Nacional para Mudança Democrática na
Síria
Info
As minorias e a classe média temem que essa seja uma revolução
islâmica e o regime seja substituído por outro pior
QUEM É
Haytham Manna é porta-voz da Comissão Árabe de Direitos Humanos e
participou dos movimentos que levaram às mudanças na Tunísia e no
Egito. Nascido em Omalmayaden, sul da Síria, formou-se em Medicina
na Universidade de Damasco e, posteriormente, refugiou-se na França,
onde vive.
Adriana Carranca - Grupos radicais islâmicos são o principal
obstáculo do movimento contra o regime de Bashar Assad, sentencia o
muçulmano Haytham Manna. Refugiado na França, ele é um dos líderes
da Coordenação Nacional para Mudança Democrática na Síria, que tenta
unir e organizar a oposição, fragmentada pelo caráter sectário da
sociedade e enfraquecida pelo temor de que o país caminhe para uma
revolução islâmica como no Irã, em 1979.
Porta-voz da Comissão Árabe por Direitos Humanos, fundada em 1998,
Manna participou dos movimentos que levaram à queda dos regime na
Tunísia e Egito. Desde que as manifestações populares tiveram início
na Síria, três parentes de Manna foram mortos - dois deles durante
as manifestações e um na prisão. Outros 34 estão detidos.
Qual é a situação na Síria?
A primeira geração de manifestantes está na prisão. Desde março,
cerca de 9 mil pessoas foram detidas, das quais mais de 3 mil são
jovens e líderes experientes que tomaram a iniciativa da revolução e
haviam se preparado para ela. Os que estão nas ruas hoje já são a
segunda geração, menos organizada e experiente. Depois, a repressão
do governo é muito grande. Em Deraa, no sul, onde os protestos
começaram, há cerca de 700 tanques a postos e as ruas são
patrulhadas 24 horas. Telefones estão grampeados, a internet falha.
Não há espaço para mobilização. Banias e Jableh, na costa, e parte
de Homs, estão na mesma situação. Mas há novos focos de oposição em
cidades como Hama, no oeste, Deir ez Zor, no leste, e a região de
Al-Jazira, nordeste da Síria.
Quem é a oposição síria?
Há três grupos. Os políticos tradicionais dos partidos banidos pelo
regime, que seguiram clandestinamente e se uniram a intelectuais e
ativistas no que chamamos de Coordenação Nacional para Mudança
Democrática. O segundo é a geração que iniciou o levante. Alguns
estiveram no Egito e levaram a revolução para a Síria. Muitos foram
mortos - 1,6 mil desde março - e 10 mil feridos, além dos presos. O
terceiro grupo é o que chamo de plateia. Não podemos dizer que são
apolíticos. Eles são opositores do regime, mas não tomaram parte das
manifestações. Estão como observadores.
Por que não se engajaram?
São minorias como cristãos, drusos e ismaelitas e têm medo da
linguagem radical de alguns aproveitadores que deslegitimam o
movimento, os salafitas (ou wahabitas), muçulmanos tradicionalistas.
Eles têm canais de TVs na Síria financiados pela Arábia Saudita,
como Wesal TV e Wafa TV. Seu discurso religioso provoca verdadeira
fobia em muitos opositores.
Eles temem um regime islâmico?
Sim. As minorias e a classe média urbana e educada temem que essa
seja uma revolução islâmica (como no Irã, em 1979) e o regime seja
substituído por outro pior. Por isso, as grandes cidades têm uma
participação muito pequena no movimento de oposição. Eles querem
democracia, todos querem! Mas têm medo do que virá.
Como unir a oposição?
Primeiro, temos de dar uma definição ao movimento e deixar claro
quem somos. Se for preciso fazer alianças com um grupo radical para
ganhar adeptos, é melhor não fazer. Não podemos formar coalizão com
nenhum grupo sectário ou religioso em detrimento de outro, pois isso
seria muito perigoso. Temos de manter o caráter democrático do
movimento. A maioria na Síria já aceitou que esse regime está fadado
ao fim e precisamos de mudanças. Se pudermos dar garantias reais de
que essa revolta não é de um ou outro, mas de vários grupos e
pessoas que desejam uma transição pacífica e um regime não sectário,
conseguiremos construir a democracia.
Como vocês se organizaram?
A maioria está na Síria e há sete ou oito expatriados como eu.
Estamos atuando em três frentes: internet, satélite e trabalho de
campo. Realizamos, por exemplo, "noites em claro" cinco vezes por
semana. São encontros com grupos diferentes, em um endereço a cada
dia (e os expatriados, via Skype), das 22h até o amanhecer, para
despistar a polícia. Eu gasto até U$ 300 para falar por satélite
quando a internet está fora do ar, mas a comunicação é essencial,
pois temos muitos pontos fracos ainda. Falta coordenação com outros
grupos opositores na Síria e há muitos surgindo entre estudantes e
trabalhadores, mas estão fragmentados. Não temos presença em todas
as cidades. Não temos grande penetração entre jovens, a maioria de
nós tem mais de 35 anos.
Qual a principal dificuldade?
O maior problema é mesmo a repressão. Na semana passada, cinco
participantes de um de nossos eventos foram presos - estavam comigo
no Skype na noite anterior. Em Hama, tentei organizar a oposição com
três médicos amigos. Eles foram presos há três dias. Em Omalmayaden,
vilarejo de Deraa onde nasci, cerca de cem pessoas foram presas no
domingo e tiveram computadores confiscados.
A Síria está preparada para a democracia?
Sim, claro! Mas é preciso agir com cuidado, pois estamos em uma
encruzilhada, como coloquei no início. Temos a mesma possibilidade
de mudar o país para melhor ou para pior. Vai depender de mantermos
os radicais longe do movimento!
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